2 de Fevereiro de 2009

Eleições na Câmara e no Senado

Publicado por Elizabeth em Sem Categoria

Lucia Hippolito

Tudo nos conformes

A eleição no Senado começa às 10h. São necessários 41 votos (ou a maioria dos presentes). José Sarney diz que tem 55 votos. Tião Vianna diz que tem 43 votos.

Alguém está blefando. Provavelmente, os dois.

Alguém vai ser traído. Provavelmente, os dois.

Já na Câmara, os líderes do Blocão, grupo de 15 partidos que apoiam Michel Temer, não querer dar chance ao azar. Decidiram antecipar a sessão para as 10h (mesmo horário do Senado), para que ressentimentos de lá não transbordem cá.

Vão transbordar.

E mais: decidiram também, no tapetão, que não é mais necessária a maioria absoluta de deputados (257 votos) para liquidar a eleição no primeiro turno. Basta a maioria absoluta dos presentes.

O Art. 7º do Regimento da Câmara afirma: “A eleição dos membros da Mesa far-se-á por escrutínio secreto, exigida, exigida maioria absoluta de votos, em primeiro escrutínio, e maioria simples, em segundo escrutínio, presente a maioria absoluta dos Deputados.” (grifo meu)

Apoiadores de Aldo Rebelo e de Ciro Nogueira reclamaram de golpe no tapetão. Vai haver uma discurseira infernal contra a “tirania da maioria”.

No final das contas, se tudo sair como manda o figurino, Sarney se elege (apertado) no Senado e Temer se elege na Câmara.

Mágoas, ressentimentos, disputa por cargos, cobranças, tudo isto vai desaguar num único lugar: no Palácio do Planalto, bem no colo do presidente Lula.

E no Congresso, o resultado final já é bem conhecido: o PMDB se fortalece e Renan Calheiros volta à cena, mandando uma barbaridade.

Tudo nos conformes 2

Tudo se passou conforme o script. Sarney venceu no Senado, e Temer venceu na Câmara. O PMDB fez barba, cabelo e bigode — bigode de Sarney.

Mas se formos analisar um pouco mais de perto os resultados, poderemos chegar à seguinte conclusão: Temer ganhou mais e melhor. Sarney ganhou menos e pior.

Explico: Sarney declarou inúmeras vezes que só aceitaria ser presidente do Senado como candidato único, isto é, ungido presidente, praticamente carregado nos ombros dos senadores até a cadeira de presidente.

Não foi. Teve que se submeter à humilhação de disputar com Tião Vianna.

A tropa de choque de Sarney (Renan e seus blue caps) afirmava, ainda ontem à noite, que José Sarney teria 55 votos. Não teve. Alcançou apenas 49. O suficiente para ser eleito, mas passou raspando.

A vitória eleitoral teve um travo amargo de derrota política.

Já Michel Temer conseguiu ser eleito no primeiro turno, o que na Câmara é coisa à beça.

Os 15 partidos que se reuniram em torno de Temer possuem, no total, 422 deputados. No início da semana passada, Temer contava com 400 votos. Depois com 340. Depois com 300.

O fantasma do segundo turno começava a aparecer atrás das cortinas. A tal ponto, que foi preciso alterar as regras da eleição para garantir que não haveria surpresas. Ontem decidiu-se que a vitória em primeiro turno se daria, não pela maioria absoluta dos deputados, mas pela maioria absoluta dos votos dos presentes em plenário.

O resultado mostrou que o tapetão era desnecessário. Temer obteve 304 votos, 99 a mais do que a soma de seus dois adversários, Ciro Nogueira (129) e Aldo Rebelo (76).

Mas nada disso importava para Renan Calheiros. Vitorioso, postou-se ao lado de Sarney no beija-mão que se seguiu à proclamação do resultado no Senado, e recebeu os cumprimentos dos senadores.

Com poucos ou muitos votos, José Sarney estava eleito presidente do Senado, e ele, Renan Calheiros, estava de volta ao poder.