Chamado de corrupto, PMDB finge que não é com ele
Escrito por Josias de Souza
Uma das características mais curiosas da corrupção se observa nos partidos políticos. O corrupto está sempre nas outras legendas.
No último final de semana, numa entrevista ao estilo arrasa-quarteirão, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) subverteu a praxe.
Olhou de relance para o quintal dos vizinhos: “A corrupção está impregnada em todos os partidos”.
Mas lançou um olhar especialmente severo para o gramado ao se redor: “Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção”.
Citou Renan Calheiros: “Ele não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido”.
Mencionou José Sarney: “A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador […]. Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão”.
Pois bem, chamado para a briga por um dos seus, o PMDB decidiu fingir que não é com ele. Em nota, a Executiva da legenda disse que “não dará maior atenção” ao tema.
Em entrevista, Michel Temer (SP), presidente do partido, disse que são demasiado “genéricas” as acusações do colega Jarbas.
Como dirigente da legenda, Temer não cogita pedir a expulsão de Jarbas. Havendo uma representação formal de outro filiado, dará curso a ela.
De resto, não se ouviu durante o dia uma mísera palavra de Renan. Nada de Sarney. Silêncio de velório.
Aqui e ali, ecoaram manifestações de desconforto e de perplexidade. Ponto. Só não ficou nisso porque Jarbas decidiu manter os lábios grudados no trombone.
“Eu não retiro nada do que eu disse, quem quiser me processar, procure o conselho de ética do partido”, repisou o senador, um sobrevivente do velho MDB.
Os repórteres cobraram nomes. E Jarbas: “Como posso citar nomes? É um número muito volumoso, eu não vim ficar como auditor do PMDB no Congresso…”
“…Eu não disse que todo o PMDB era corrupto, mas grande parte. É nos escalões superiores que a corrupção vive”.
A reação do PMDB aos ataques de Jarbas é tão amena que extinguiu-se em relação ao partido até o benefício da dúvida.
O absurdo e a perversão adquiriram no PMDB uma doce, persuasiva e admirável naturalidade.
Apenas um “desabafo” ?
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Silêncio e a divulgação de uma nota que trata como mero “desabafo” as acusações feitas pelo senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Essa foi a receita da cúpula do PMDB, acusada de corrupta e fisiológica pelo parlamentar pernambucano, para abafar a crise dentro do partido. Principais alvos de Jarbas, o presidente do Senado, José Sarney (AP), e o líder do PMDB na Casa, Renan Calheiros (AP), avisaram ontem logo cedo que não comentariam o assunto.
A primeira reação do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), e do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ligados a Temer, foi sugerir que o senador deixasse o PMDB. Ontem, porém, eles entraram na operação para sufocar a discussão. A expectativa era de que o caso esfriaria nesta semana, anterior ao carnaval. Não é de hoje que Jarbas tem assumido uma posição dissidente no partido. Desde que chegou ao Senado, em 2007, tem ocupado a tribuna para criticar o governo e o comportamento fisiológico do PMDB. A relação de Jarbas com a cúpula do partido, no entanto, se desgastou mais fortemente com a eleição de Sarney para o comando do Senado e de Renan para a liderança do partido.
Um dos poucos peemedebistas que resolveram falar sobre o tema ontem foi o senador e também dissidente Pedro Simon (RS). “O comando do PMDB não tem grandeza, só pensa no seu próprio interesse. Só pensa em carguinhos, em ministério”, afirmou o parlamentar, acrescentando que uma sigla que muda de lado, apenas de olho no poder, não é um partido. Na avaliação do senador gaúcho, o comando do PMDB não vai comprar briga com Jarbas. “Para expulsar Jarbas, teriam de chamar a comissão de ética, o que destruiria o PMDB.”
Que pena que o velho MDB não é mais o mesmo.
Se entre as prórpias fileiras há indignação, imagine o que desconhecemos?